Quando criança, fui ensinada a perdoar. 

Antes, acreditava ter aprendido com aqueles que falavam em nome do sagrado. Hoje, percebo que aprendi na creche. Lá, quando outras crianças empurravam, mordiam e diziam grosserias num instante e, no seguinte, após broncas, choravam como se, enfim, me enxergassem como alguém que, também, sentia dores e amores; eu as perdoava. Não por grandeza, mas por querer continuar segurando a mão de quem brincava comigo todos os dias.

Naquela época, e ainda hoje, meu coração não era capaz de suportar longas guerras. Digo que aprendi na primeira infância o brilho que existe no olhar frente ao verdadeiro arrependimento. Faço essa afirmação porque, claro, eu mesma já estive na outra posição: a de quem teme ter feito algo tão terrível que jamais poderia ser digna de amor novamente, aquela de quem teme ter quebrado algo impossível de ser reparado.

Mas foi na vida espiritual que o perdão deixou de ser simples e passou a ser sufocante.

“Até setenta vezes sete.” Li durante toda a minha adolescência, em Mateus (18:21), e ainda hoje estou a aprender. O perdão liberta quem perdoa, é o que dizem. Aos sete anos, libertar uma criança que me mordia era, sim, díficil. Crescendo, no entanto, entendi que setenta vezes sete não é uma conta para crianças e mordidas eram o início de perdões que me tirariam o sono. 

Há dias em que sou como uma juíza. Eu quero a justiça, mas “perdoem-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32) continua me perseguindo. 

Do lado de cá, como alguém que já foi uma péssima filha, uma péssima amiga, um amor que errou em excesso, o perdão que recebi daqueles que foram as minhas vítimas foi um dos maiores atos de amor que já experienciei. Por outro lado, como alguém que compara falhas, que pesa erros em balanças internas, e sabe que uma discussão entre amigas jamais terá o mesmo peso que uma violência doméstica: eu confesso querer que a vida seja implacável para aqueles que ocupam a posição de réu. 

Desejo que ela ensine, de forma severa, como atravessar a alma e vida alheia tem um preço alto, muito alto. Mas a vida raramente dá essa lição aos que a merecem. Às vezes, quando ouço Sade cantar Pearls (1992) ou quando lembro que meu irmão está entre as setecentas mil vidas perdidas na pandemia, não sou capaz de respirar, quem dirá perdoar. 

Nesses momentos, eu não sou capaz de confiar novamente. 

Não me recordo das maravilhas da reconciliação. 

Sendo sincera, meu desejo menos danoso é a revolta. Esqueço do “Não paguem a ninguém mal por mal” (Romanos 12:17) e penso na retribuição merecida por aqueles que destroem este mundo. Mesmo que, muitas vezes, ela sequer venha. Neste mundo, o mal acoberta o mal. No outro, porém, o perdão genuíno vos libertará e o Senhor defenderá os oprimidos (Salmos 146:7).

No segundo caso, penso que se o perdão significar absorver o que rouba pela fome ou aquele que não foi agraciado pela geografia da sorte, então que sejamos todos perdoados. Assim, enfim, os que sorriem quando deveriam chorar, poderão se regozijar do lugar onde não haverá dor, choro ou luto (Apocalipse 21:4) e a misericórdia será o nosso teto em comum.

A questão é que, ainda na ausência de uma fé, todos recebem do tempo, da dádiva de novas relações e da complexidade humana o direito ao perdão. Àqueles que reconhecem seus erros, se arrependem e, quando necessário, pagam por eles perante a justiça, é concedida a possibilidade de seguir em frente. E, por mais injusto que possa parecer ao nosso coração magoado, independente dos nossos desejos, nada podemos fazer contra isso.

Nesses casos, não é difícil pensar que o perdão liberta quem o concede. Mas quando o erro exige correção e a justiça falha, eu não me escondo. “O Senhor é juiz; Ele julgará o mundo com justiça.” Está em Salmos 9:8 assim como “Aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça! Repreendem o opressor” está em Isaías 1:17. 

Por isso, afirmo: sim, ao final, todos merecem perdão, mas convido a todos a abrir nossas bocas em favor dos que não podem se defender (Provérbios 31:8) e celebrar sem culpa a retidão. 

Como Dona Ivone Lara canta em Tendência (2005): o pranto do mal não me comove. Afinal, ele é como o suspiro de alívio daqueles que foram alvejados pela perversidade. Sendo assim, eu desejo a todos um bom comparecimento no tribunal de Deus (Romanos 14:10).

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