A minha garganta doía pela primeira vez em um ano. Meu corpo nunca soube lidar com mudanças de estação e aquele era o meu primeiro inverno alemão. Na estação da minha cidade, tão pequena quanto o bairro onde cresci em São Paulo, percebi que não conhecia nenhuma linha de trem além da S6. Mal sabia eu que, a partir daquele dia, Eschersheim se tornaria a minha parada preferida. 

Ainda hoje, eu olho para os bancos antigos da estação quando passo por ali, a caminho da Hauptwache. Não quero encontrar você; quero lembrar de nós. Lembrar de como sentamos lado a lado, com sorrisos enormes e dedos entrelaçados. Lembrar de como sussurrou: “Quer conhecer o meu apartamento?” e de como respondi, fiel a mim: “Ainda não.” Porque o jeito como me olhou, com os olhos azul-escuro brilhando em ousadia, sem perder a compreensão, me deu a certeza de que, com calma, um dia eu iria querer ir até o seu apartamento. 

Mas contar isso é deixar para trás como eu me surpreendi, no nosso primeiro encontro, com o seu cheiro de hortelã e com a sua altura, que às vezes impedia os raios de sol de tocarem a minha pele. De como você parecia querer ouvir tudo o que eu tinha para dizer e, a cada palavra minha, o seu sorriso se alargava. A cada detalhe obtido sobre mim, sobre nós, um novo encontro parecia nascer. 

“Você está livre amanhã?” Sim. 

“E no sábado?” Sim.

“E no domingo?” Nós rimos, e eu dei os ombros como quem, por um instante, esquece que tem a vida inteira organizada em uma agenda.

Quero sempre dizer muitas coisas, entre elas que caminhar em temperatura quase negativa só foi bom uma vez e foi por sua causa. Quem se importa com mãos congeladas quando se sente tão viva falando sobre o último filme que mexeu com você? E mesmo quando o silêncio nos alcançou, as minhas mãos continuaram aquecidas nas suas, guardadas com cuidado dentro do seu bolso. 

Ao seu lado, esqueci o que era inverno. Quando você sorria, derretia tudo ao redor. E quando você se foi, até o cheiro do seu cigarro preferido me fez falta. Hoje, quando me perguntam sobre o verão alemão, digo que o encontrei em uma tarde de janeiro e que me despedi dele antes mesmo de ver os primeiros Schneeglöckchen brotarem. 

Mas a nossa despedida não me feriu e como poderia? Quem precisa de flores para anunciar a primavera quando o som das suas risadas foi o sino que tocou com a chegada de uma nova estação?

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